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12 de março de 2010

FAFE NO SÉCULO XVIII

Torres sineiras da Igreja Matriz de Fafe
Foto dos inicios do séc. XX ( autor desconhecido)


Até à data não foram realizados estudos aprofundados visando um conhecimento menos dúbio da génese da Vila de Fafe.
É muito provável que no local onde está a Igreja Matriz de Fafe, tenha existido um templo de construção bastante mais recuada e à volta dele um pequeno aglomerado que, gradualmente foi atraindo população que também se distribuiria no território, em casais.
Mas deixemos a Idade Média e o profundo desconhecimento que temos, por cá, deste período e centremo-nos no século XVIII.
António Carvalho da Costa, na sua obra “Corografia Portuguesa”, datada de 1706, refere-se a Fafe como Vila cabeça do Concelho de Montelongo e descreve-a como tendo uma só rua (estrada Guimarães para Cavêz, actual Praça 25 de Abril, na época chamada rua de Cima), onde existia a “Casa da Câmara e a Cadeia”, um edifício de dois andares, o superior ocupado pela Câmara e o inferior para cadeia, com espaços separados para homens e mulheres. Fafe tinha “dois juízes ordinários, três escrivães do publico, câmara de vereadores, procurador do povo e escrivão da câmara e também juiz e escrivão dos órfãos, meirinho e ofeciaes da vara como porteiro e cadrilheiros, os quoaes cargos e ofícios dá e apresenta o Excelentíssimo Marquês de Valenssa”(1) No início do séc. XVIII, já aqui se realizava feira franca, no primeiro dia de cada mês, mais tarde, em 1758, é conhecida a realização de uma feira anual, chamada “Feira do Linho” (por ser este o artigo mais comercializado), a 21 e 22 de Agosto.
Em meados do séc. XVIII já se realizava a procissão de Nossa Senhora de Antime, transportada por oito jovens solteiros que carregavam a charola e imagem em pedra, com cerca de 16 arrobas. “ E no mesmo dia se recolhe a procissão com mesmo aparato e festejo. E no lugar do Lombo junto à Ponte Nova acendem dois castellos de fogo que ficam hum no destrito desta freigezia e o outro no da de Antime que sendo pouco vistoso por ser de dia não deicha de ter grasa pello estrondo (1)
Outra fonte para o conhecimento da freguesia de Fafe setecentista é as “Memórias Paroquiais de 1758”. O inquérito então realizado refere que Santa Eulália de Fafe tinha 342 vizinhos e pouco mais de 1000 habitantes.
Fafe era, nesta época uma vila rural; em redor dos Casais existiam férteis campos que produziam, com maior abundância, milho, centeio, algum trigo e feijão. O vinho era abundante, embora, na época “inferior ao de outras freguesias por agro e menos forte”(1)
Gado bovino e rebanhos de caprinos e ovinos povoariam também os campos em redor do pequeno burgo.
Os afluentes e o próprio Rio Vizela eram na época ricos em peixe; por aqui pescava-se truta, escalo, barbo, boga e até alguma enguia.
A configuração da Fafe no século XVIII, não sendo conhecida a rigor, parece ter-se desenvolvido junto da antiga estrada Guimarães para Cavez, um eixo viário de origem medieval que passava o Vizela na ponte de Sangidos subindo pela Fafoa, rua de Baixo e actual Praça 25 de Abril onde se localizava o centro do burgo com algum casario, Câmara/Tribunal e Cadeia, no local onde foi construído o Jardim do Calvário existia uma capela de cronologia desconhecida, consagrada a Nossa Senhora dos Remédios. Outras capelas são referidas nas “Memórias Paroquiais”: As Capelas de S. José, Santo António e Santo Ovídio no Lugar de Crasto e S. Bento em Calvelos.
Algo mais haveria a dizer da Fafe setecentista e muito mais haverá para investigar… mas essa é tarefa para os estudiosos e historiadores do “burgo”. Fico-me por aqui, neste breve apontamento que, espero, tenha algum interesse junto dos nossos leitores.
Os sinais de cada tempo são gradualmente anulados e Fafe pouco conserva da sua vivência Barroca. Contudo, ainda consigo respirar algum ambiente da Vila setecentista, na Ranha, em Sá, na rua do Assento, no Santo Velho, na actual Travessa Luís de Camões e talvez noutros locais onde surgem ainda ténues vestígios materiais do século XVIII.
Propositadamente não fiz grande referência à nossa Igreja Matriz, de traça Barroca, por considerar que este templo, só por si, merece um apontamento monográfico.


(1) Fafe nas Memórias Paroquiais de 1758, Estudo e Coordenação de José Viriato Capela. Edição: Câmara Municipal de Fafe, 2001.
Apontamento publicado também no Jornal "Correio e Fafe" de 12/3/2010

1 comentário:

António Daniel disse...

Ora aí está um tempo esquecido em Fafe: o séc. XVIII. Mais um apontamento interessante, Jesus Martinho. Relativamente aos locais que nomeia no fim do texto, quais são essas marcas de que fala. Tirando a Igreja Matriz, que outras edificações se referem a essa altura? Se tiver pachorra, gostaria que me indicasse. Obrigado.