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12 de abril de 2010

MEMÓRIAS DE UMA VILA

PERSPECTIVA DE JOSÉ AUGUSTO VIEIRA, 1886

José Augusto Vieira foi um médico e escritor da segunda metade do século XIX que, entre outras obras escreveu “O Minho Pittoresco” (1886).
O autor percorreu toda a região minhota visitando também a vila de Fafe, retratando-a de forma sintetizada na referida obra.
“Olhe, meu caro, esta boa terra de Fafe é assim: pão pão, queijo queijo – portugueza de lei, hospitaleira, franca até à rudeza e capaz também de pôr um bom cassete de cerquinho, a sua justiça d’elles, onde el-rei não haja posto a sua própria”.
Vê-se por este texto de J. A. Vieira que a famosa “Justiça de Fafe” tem uma tradição anterior ao final do século XIX. Diz ainda o autor: “E é que a espada vae na burra, e nada por isso de contrariar a altaneira Fafe. Mas é de synphatizar, não é verdade?”.
Augusto Vieira ficou instalado no Hotel da Vista Alegre localizado no centro da Vila e das suas janelas observou a vista retratada na gravura aqui reproduzida, num desenho original de João de Almeida, referindo ser o “coração de Fafe” a Praça Municipal com o edifício dos Paços do Concelho a cadeia e o relógio encimado por um sino. Para além disto a Vila da época resumia-se a mais “duas ou três ruas e um outro largo” (actual Praça José Florêncio Soares).
Quanto aos edifícios públicos são realçados o Hospital (1860) e o “Asylo na rua D. Maria Pia” (actual rua Major Miguel Ferreira). O Cube fafense (1882) já existia assim como o “passeio” (actual rua António Saldanha).
“A estrada para Guimarães é um encanto, e com uma feiticeira de ordem tal não há tregoas a conceder ao músculo que se fatiga! Veja aqui já ao sahir de Fafe, como estas ruas Formosa e de Baixo formam um delicioso Boulevard, ornamentado com as suas vivendas esmeradas e coisas, de onde a onde espreitando por entre as uveiras em festão!”
O autor realça ainda a abundância de frutas a preços baixos e …”a especialidade do pão-de-ló, e sobretudo a deliciosa vitella, que torna Fafe uma celebridade entre os amadores da carne tenra e branca”.
Apesar de pacata, a Vila do último quartel do século XIX tinha já dois periódicos: “O Jornal de Fafe”, fundado em Janeiro de 1885 e o “Correio de Fafe” (1ª edição), cujo primeiro número foi publicado em 12 de Agosto do mesmo ano. Augusto Vieira refere claramente a existência de dois jornais, embora não os nomeie.
“…Fafe não desmente a regra; ahi tem na imprensa o seu órgão, a sua voz social, perdão, é melhor pôr a palavra no plural, visto que Fafe, politica ao ponto de escrever artigos de fundo… com marmelleiro, não poderia viver sem dois órgãos, um que fosse pelo grupo A, outro que fosse pelo grupo B”, referindo-se naturalmente a progressistas e regeneradores.
O autor menciona ainda as duas feiras anuais da época: uma a 16 de Maio, com a forte presença de gado e outra a 22 de Agosto, designada feira das cebolas, por ser este o produto que mais se comercializava nesta feira.
J. Augusto Vieira foi muito crítico, relativamente às hospedarias onde ficava instalado; O Hotel da Vista Alegre não fugiu à regra e também ficou divulgado por ter bom vinho verde de Basto e um “caldo verde primorosamente feito! E valha ao menos isso para esquecer as alcovas abafadiças e pouco olorosas, as ferroadas de vários insectos escarlates, o aceio, que falta como para alimentar o viajante a voltar ao seio d’esta frescura de natureza, esquecendo a pouca frescura das hospedarias minhotas!

No que diz respeito à Vila “O Minho Pittoresco” não revela outras informações dignas de registo neste apontamento. Sabemos, contudo que a Vila se expandiu, transformando-se, rasgando novos arruamentos e construindo edifícios públicos e particulares. Era a “febre” da filantropia dos “brasileiros” de torna viagem que lançava terminantemente Fafe para o futuro.
A 124 anos de distância sabe bem relembrar salpicos da história de uma vila relatada na primeira pessoa por um amante e ao mesmo tempo critico de um Minho cada vez menos verde e descaracterizado. São os sinais do tempo… e que belo seria aquele tempo na Vila de Fafe com a natureza mesmo aqui ao lado com o chilrear da passarada e o galope dos cavalos em vez das buzinas e motores ruidosos e poluentes de um ambiente cada vez menos atractivo.

Fonte: “O Minho Pittoresco” de José Augusto Vieira, Lisboa 1886

Esta peça foi também publicada no jornal "Correio de Fafe" de 9 de Abril de 2010

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