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15 de abril de 2010

MEMÓRIAS DE UMA VILA



O Comboio em Fafe

Com cerca de 8 décadas de História, desapareceu há 24 anos.
A ideia da ligação ferroviária entre Guimarães e Fafe surge em 1891, altura em que uma determinação governamental autorizava a Companhia do Caminho-de-ferro de Guimarães a executar a mencionada linha.
Contra a vontade de muitos, só em 1903, com enorme influência do então Ministro das Obras Públicas, Conde de Paçô Vieira, os trabalhos começaram e desde logo ficou determinado o local para edificar a Estação, no lugar de Sá. A cerimónia inaugural para a construção da linha realizou-se a 14 de Junho de 1903.
Os trabalhos de prolongamento da via-férrea até Fafe duraram cerca de quatro anos, com alguns percalços e atrasos que alimentaram algum desânimo no seio da população.
Era Domingo 21 de Junho de 1907, dia festivo que alterava definitivamente o curso da História de uma Vila em expansão.
Como é natural os jornais da época deram ênfase ao acontecimento, “O Desforço” de 25 de Julho 1907 descreveu assim este melhoramento:
“As festas d’inauguração da linha-férrea de Guimarães a Fafe, foram grandiosas como se esperava… Fafe deu mais um passo no caminho do adiantamento material, passo agigantado, o maior de todos sem duvida…
“Este dia amanheceu de gallas, mas nublado. Com uma viração bastante fresca, parecia querer beneficiar os milhares de forasteiros que a esta villa atrahiam”…
A vila toda estava embelezada com muitas bandeiras “multicolores” que se estendiam da “estrada do Retiro até à Estação”. Foram instalados três coretos: no Jardim do Calvário, no Largo Conselheiro Ferreira de Melo e em frente aos Paços do Concelho (actual Praça 25 de Abril).
“Sae a cavallaria para o local da estação e após ella a corporação dos bombeiros com a respectiva banda”.
A aguardar o cortejo e naturalmente a chegada do comboio estavam as autoridades civis e militares mais duas bandas de música, com uma moldura de milhares de populares que quiseram testemunhar o acontecimento.
É chegado o momento tão esperado: “Aos primeiros silvos das locomotivas, tudo rejubila. São duas, conjugadas, que se denominam «Porto» nº 5 e «Negrellos» nº 2 a rebocarem 17 vehiculos. Ao aparecimento, na ultima curva, quando os silvos redobram e o penacho de fumo se torna mais intenso, a alegria é então delirante, chega ao seu auge e contentamento! É uma hora e 20 minutos quando o comboio entra nas agulhas da estação por entre filas de povo. O enthusiasmo, a esta hora feliz para Fafe, é indescritível!... As locomotivas chegaram adornadas com bandeiras e tropheus, a gosto.”
Seguidamente a comitiva seguiu para junto dos Paços do Concelho onde foram proferidos discursos e lido o auto inaugural, pelo meio da cerimónia o povo não se cansava de lançar vivas.
Pelas 16 horas os convidados dirigiram-se para a Casa do Santo Novo (Casa Municipal de Cultura) onde os esperava um farto banquete que durou até ao anoitecer.
Depois o fogo:
“Pelas 9 horas principiou o fogo de artificio do ar, de bello effeito, que foi abundante, vendo-se também, de vez em quando, cortar os ares, lindos aeróstatos. Todas as musicas tocavam. E o enthusiasmo não desapparecia, proseguindo pela noite dentro…”
“Às 10 horas da noite lá abalava o comboio com uma grande parte daquellas mil e tantas pessoas que estrearam a linha”.
Durante 78 anos, 1 mês e nove dias o comboio cumpriu a sua função de transporte de pessoas e mercadorias, num vai e vem constante, unindo duas cidades de grandes contrastes.
Em 31 de Maio de 1986 os fafenses viram partir o último comboio de ligação à Cidade Berço. Ficava assim cortado um dos “cordões umbilicais” ao interior desenvolvido.
Restou o percurso, pavimentado, sem ferro, uma concorrida pista de ciclo turismo cuja inauguração contou com a presença do Presidente da Republica Jorge Sampaio, diz a placa comemorativa, no dia 24 de Outubro de 1996.
A 24 anos da desactivação da linha-férrea Guimarães a Fafe, surgem sinais ténues para uma hipotética retoma deste meio transporte.
Com ou sem comboio, Fafe continuará a fazer a sua História que os vindouros inevitavelmente ajuizarão.

Fonte: Jornal “O Desforço” de 25 de Julho de 1907

Peça publicada também no jornal "CORREIO DE FAFE", de 16 de Abril de 2010
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