NAVEGUE PELO BLOGUE

3 de março de 2011

O CARNAVAL EM FAFE HÁ 100 ANOS

Reprodução do Jornal "O Desforço"


Não existem muitas informações relativas aos Carnavais de Fafe no período que antecedeu a primeira Republica. Os jornais da época relatam algumas festas carnavalescas num período pós monárquico em que o Carnaval de 1911 aparece como uma das maiores celebrações desta quadra ficando gravada na memória de muitos fafenses. O jornal centenário “O DESFORÇO”, datado de 2 de Março, relata o grande cortejo carnavalesco do Domingo Gordo 26 de Fevereiro de 1911 que aqui reproduzimos, quase integralmente.


“Á frente dois cavalleiros ricamente vestidos e montados em garbosos cavallos faziam entoar, de espaço a espaço, as estridulas notas dos clarins que empunhavam.

A seguir vinham seis zabumbas vestidos de cosinheiros e logo atraz um carro puxado a cavallos e ornamentado com innúmeras cordas formando monte, no cimo do qual se levantava um letreiro com o dístico Pró…

Vinha depois o carro dos artistas, muito vistoso e rodeado por várias figuras, entre ellas uma borboleta montada num jumento. Este carro representava o cruzador «S. Raphael», um dos que entrou no bombardeamento de 5 de Outubro, todo embandeirado, encimado pela figura da Republica e tripulado por marinheiros armados de espingardas. Era puxado por cinco magníficas juntas de bois dirigidos por esbeltas e lindas camponezas.

Atraz ia uma pittoresca banda de música composta de gallinhos e regida pelo impagável Manuel Ceguinho. Seguia-se-lhe a banda do Leonardo, fardada, e depois a comissão dos artistas, em carro.

Após este grupo seguia o carro reclame do nosso presado amigo snr. Alexandre Martins, de Felgueiras, ornamentado com muito gosto pelo Sr. Lodolpho Von Doellinger… Ornamentava este carro um conjunto de grandes barris e garrafas de vinho especial fabricado por aquele senhor, assim como muitas caixas de bolacha da fábrica que possue em Felgueiras. Era puxado por um bonito garrano guiado por uma enorme garrafa.

Seguia-se-lhe um carro imitando um ninho dos snrs. Marinho e Irene Marques. Dentro de um grande ovo, collocado no meio de um ninho iaam aqueles senhores vestidos de pintainhos jogando serpentinas.

Atraz d’este um carro particular, com alguns cavalleiros d’esta villa que também jogavam.

Depois um outro carro do Grupo: o da Liberal concentração, aludindo a um episódio das ultimas eleições de Villa-Cova. Era ornamentado com inúmeras sovelas de diferentes tamanhos e levava no meio uma urna com a ignóbil porcaria. Dentro alguns homens dando caça aos eleitores. Nos lados dois medalhões com a caricatura de dois políticos, muito em evidencia na derrobada monarquia. Atraz ia a Banda do Salvador, vestida de verde, carnavalescamente.

Vinha depois o carro dos Bombeiros também muito vistoso, adornado com diverso material usado na extincção de incêndios. Sallientava-se neste carro um descomunal capacete, semelhante aos que os bombeiros usam.

Outro carro particular com empregados commerciais desta Villa.

Depois um carrinho muito bem ornamentado do Sr. Artur Azevedo e a seguir um particular também ornamentado ppr vários cavalheiros d’aqui, que iam jogando serpentinas, confetis, etc. Seguia-se-lhe um outro carro do Grupo: umas galeria puxada a duas parelhas e toda enfeitada conduzindo alguns sócios do G.P.P.F. que jogavam com enthusiasmo e calor. Logo depois um landeau também lindamente ornamentado e que conduzia sócios do Grupo de Propaganda por Guimarães, acompanhados da sua bandeira e que gentilmente vieram collaborar nas festas. Distribuíam uma linda poesia impressa e dedicada às damas fafenses e ao Grupo de Propaganda Pró Fafe.

Finalmente o carro d´Honra do Grupo: um grande galeão com um enorme búzio, do qual sahia a figura da folia, representada por uma menina luxuosamente vestida. Era tripulado por sete encantadoras crianças, vestidas de marinheiros, seis dos quais figiam ir remando e um guiando o leme. Era tirado por duas bellas parelhas conduzidas por moços de libré e ornamentado por muitas grinaldas de flores verdes e vermelhas. Acompanhava uma banda de musica mascarada e vestida de vermelho e branco, levando a pancadaria á frente, á moda de Hespanha.

Apareceram ainda alguns outros carros particulares, destacando-se um automóvel da Lixa, onde vinham algunmas senhoras vestidas de lavradeiras.

Em todo o cortejo jogou-se sempre com grande animação correspondendo a senhoras e cavalheiros das janellas aos jogadores que seguiam no cortejo. Sobretudo no Hotel Central e a casa do Sr. Franco o enthusiasmo chegou ao dilirio, dando-nos a ideia que se assistia a uma verdadeira batalha, tal a quantidade de projectis que de parte a parte atiravam.

O largo da Villa conservou-se sempre cheio de gente que seguia com curiosidade as peripécias da batalha.

Á noite tocou num coreto armado no largo da Republica uma banda de musica, a de Golães, que agradou bastante e lançou-se um vindo fogo do ar que produziu bastante efeito”.

A festa prolongou-se pela noite dentro no teatro da Villa, onde se brincou ao Carnaval, num ambiente de grande folia. A sala, completamente cheia, assistiu a um espectáculo pelo Grupo de Propaganda Por Guimarães. Musica e representação de comédias agradaram ao público que retribuiu com forte ovação arremessando flores aos artistas.

Por fim a Portuguesa foi tocada, e ouviram-se entusiásticos vivas à Republica.

CULTURA


Sem comentários: