NAVEGUE PELO BLOGUE

28 de maio de 2011

OS ARTÍFICES DA LUZ

Igreja Paroquial de Cepães



Estamos no Minho região particularmente conhecida pelas suas festas populares, arraiais e romarias. Sempre admirei a forma singular como o Minho mantém as suas tradições nas inúmeras romarias onde o religioso é muito devotado e o profano igualmente apreciado.

Quando chega o verão a “Terra verde” entra em festa, por todo o lado entoam foguetes e os altifalantes, que do alto de igrejas e capelas, debitam música popular, seja “pimba” ou folclórica, anunciam ao Povo que se aproxima o dia da festa.

Antecipadamente as comissões entram em acção preparando os festejos ao pormenor.

Já lá vai o tempo dos “paus embandeirados”, há muitos anos que a luz eléctrica faz parte das ornamentações, mais arco menos arco, à medida do orçamento, não há festa que se preze que não tenha iluminações artísticas.


Aproxima-se o dia da grande festividade em honra de Nossa Senhora de Guadalupe na freguesia de Cepães. Na tarde da passada sexta-feira 27 de Maio, passei pela igreja paroquial daquela localidade e reparei nos preparativos para a festa que se aproxima a passos largos, nomeadamente nos trabalhos de iluminação do templo. Observei dois homens “pendurados” na torre sineira, dispondo criteriosamente as armações preenchidas com pequenas lâmpadas multicolores que outro homem ultimava em terreno mais seguro.


António, com 20 anos, trabalhava na parte alta da torre junto aos sinos, estava seguro por uma corda que o prendia à cintura; “isto é obrigatório mas prende-me os movimentos, tem de ser…” disse-me o jovem. O Manuel com 47 anos, deslocava-se cuidadosamente no friso médio da torre sem qualquer protecção, “estou habituado, já trabalho nisto há 14 anos”, afirmou o Manuel que nunca sofreu qualquer acidente mais grave para além de “uns choques eclécticos e umas pequenas quedas, nada de mais”, referiu. Já passava das 15 horas, o calor apertava e Manuel e António continuavam o seu trabalho de alto risco, enquanto generosamente respondiam às minhas questões. “Vamos aparecer no jornal? Perguntaram enquanto eu apontava a objectiva da máquina fotográfica e registava aquela cena “radical” onde dois homens desafiavam a lei da gravidade deambulando por estreitos frisos graníticos em redor da uma torre com cerca de vinte metros de altura.


Chegado a casa escrevi esta peça e ocorreu-me que, pela primeira vez, tinha entrevistado dois “equilibristas sem rede” que arriscam a sua vida para tornar as festas mais vistosas, em troca de poucas centenas de euros.

A partir de agora, sempre que apreciar um templo iluminado vou lembrar-me dos “Antónios” e dos “Mamuéis” que por todo este Minho trabalham no limite do abismo que a qualquer momento pode atrair fatalmente.

Fica aqui a minha admiração e singela homenagem a estes homens sem vertigem, “artífices da luz”.








Sem comentários: