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1 de julho de 2011

ANTIGA OLARIA “XAI-XAI” UMA MEMÓRIA A PRESERVAR



Na Travessa da Esperança, em S. Jorge, nesta cidade, encontramos um velho painel de azulejos com a inscrição: “Olaria Xai – Xai de Adélio C. Ferreira”. Entramos por um largo portão e deparamo-nos com um amplo espaço que outrora funcionou como ateliê de cerâmica.



Adélio Carvalho Ferreira, já desaparecido, nasceu em Barcelos a 21 de Fevereiro de 1927 no seio de uma família de oleiros tradicionais. Com apenas 14 anos de idade partiu para Moçambique onde desenvolveu a técnica da cerâmica e apurou os seus dotes artísticos. Foi na paradisíaca cidade de Xai Xai, em Moçambique, que conheceu Irene Ismael, com quem casou e teve duas filhas, Irene e Adélia.





Em 1975 a família Ferreira viu-se obrigada a regressar a Portugal por consequência da descolonização em África. Na tentativa de refazer uma vida desapossada, Adélio Ferreiras fixou-se em Fafe, onde, com enorme sacrifício, construiu a sua própria olaria, única fonte de rendimento do casal. Ao longo de trinta e dois anos o artista do barro produziu os seus trabalhos, que, normalmente, eram encomendados. Apesar da azáfama, de vez em quando, o artista “refugiava-se” na sua arte, dando largas à sua criatividade, produzindo obras de cunho pessoal, que hoje observamos com admiração. A companheira Irene, que também já não está entre nós, esporadicamente, moldava o barro criando belas peças de inspiração africana, talvez para não perder as raízes da sua terra natal.



A ampla oficina, onde tantos jovens e adultos aprenderam um pouco da arte do Mestre Adélio, exímio artífice do barro, parece estar parada no tempo, “hibernou”, à espera de uma “lufada de ar fresco” que a torne novamente activa, de forma a salvaguardar condignamente a memória deste artista que, um dia, Fafe adoptou.



Outrora o ateliê recebia argila em estado puro, vinda do sul do país, que era amolecida em água numa “tulha”. Passados alguns dias o barro era submetido à fieira, uma máquina que amassava e preparava a matéria-prima que o artesão colocava sobre a sua roda de oleiro, dando-lhe a forma desejada, com uma impar destreza manual, As peças eram depois cozidas em fornos alimentados a lenha ou em muflas eléctricas que o próprio artista construiu para poupar gastos.


A olaria “Xai – Xai” produziu azulejos, telha de Prado e as mais variadas peças decorativas e brindes publicitários. As herdeiras Irene e Adélia conservam muitas centenas de peças e moldes que são testemunho de três décadas de produção cerâmica. Irene Ferreira, apoiada pela sua irmã, quer revitalizar a olaria, dar continuidade a uma indústria artesanal familiar iniciada pelos seus progenitores, onde ela própria adquiriu conhecimentos e também produz. O seu sonho é poder, um dia, ensinar a crianças técnicas da arte da olaria. Irene diz-se preparada e com uma vontade inabalável de levar por diante este empreendimento que confessa não ser fácil, mas considera muito importante para a sua realização pessoal e, sobretudo, para não deixar morrer aquele rico património artístico, que é a memória familiar que as duas irmãs querem ver revigorada e valorizada.



Adélio Carvalho Ferreira foi um artista que Fafe acarinhou. Nunca participou em certames ou sequer integra o “galarim dos fafenses ilustres”, contudo, a sua produção artística, legou-nos numeroso espólio de grande qualidade que está guardado no local onde foi criado, um espaço de memória, um museu vivo que merece ser valorizado e partilhado. A olaria “Xai-Xai” faz parte do Património Cultural fafense. Que o topónimo da artéria onde está localizada seja um bom presságio.






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