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7 de julho de 2011

UMA ROMARIA CENTENÁRIA




As primeiras referências à romaria da Senhora de Antime surgem na segunda metade do século XIX, através da pena do grande romancista Camilo Castelo Branco que, na sua obra “Memórias do Cárcere”, editada pela primeira vez em 1862, faz a seguinte descrição: “É de saber que Luis Lopes, António Manuel e José Vieira, que ainda vive, foram em anos verdes, três denotados jogadores de pau, e tamanho terror incutiram nas cercanias de Fafe que bastaria a qualquer deles, para vencer a sua, mandar o pau e não ir, como o rei da Suécia fazia às botas.



As mais memorandas façanhas dos Vieiras tinham o seu teatro na celebrada romaria da Senhora de Antime. Aí apareciam os três campeadores mascarados, como era de uso em mancebos de famílias de alto porte. As máscaras afiavam as chancas de outros chibantes, e deste gracejar de mau agouro procedia o partirem-se as caras por debaixo das máscaras, como se as não quisessem para outro mister, ou as sacrificassem à padroeira da romagem, como os índios se estiram sob as rodas das carroças dos seus ídolos. A Senhora de Antime é de pedra e pesa com a charola vinte e quatro arrobas. Os mais possantes moços da freguesia pegam ao banzo do andor. Aconteceu, há anos, ser um dos que puseram ombro ao andor mal visto dos outros, e de um principalmente. Ao dobrar de uma esquina o moço odiado sentiu-se vergar sob as vinte e quatro arrobas de pedra, e morreu instantaneamente esmagado. O principal inimigo do morto foi logo conhecido e varado por uma choupada, que lhe fez espirrar o sangue e a vida à charola da imagem. Tirem disto a limpeza de consciência e religiosidade daqueles sujeitos, que ali vão dar testemunho de seu fervor, com a Senhora de pedra aos ombros!”.




O prematuramente desaparecido investigador Miguel Monteiro defendeu que a procissão de Nossa Senhora de Antime tem raízes num “ritual muito antigo praticado pelos rapazes casadoiros, cumprindo assim o rito da passagem de adolescentes para o estádio dos adultos, num hino à fecundidade que lhes é esperada pela comunidade, simbolizado na Ara e no icon.” O mesmo autor baseou esta interpretação no facto da Senhora de Antime ser também designada por Senhora do Sol, numa manifestação mágico-simbólica à estrela principal do sistema solar, como “valor masculino a quem são atribuídas capacidades fecundantes”.

Miguel Monteiro escreveu ainda: “Com a cristianização da região, procurou-se substituir este ritual pagão por outro mais adequado à simbologia cristã, surgindo assim a Nossa Senhora de Antime como um culto de substituição, ligado provavelmente ao mosteiro de Santa Maria de Antime, documentado já no ano de 1120, tendo o icon pagão primitivo sofrido uma transformação plástica, colocando-lhe uma cabeça e os braços, de modo a dar-lhe as feições de uma Santa Cristã.”

Em 1874, Pinho Leal, no seu Dicionário Corográfico descreve a imagem da Senhora de Antime como sendo de “granito metamórfico, com braços postiços e sem pernas nem pés, nem feitio algum de gente, além da cara.”

Será um pouco arrojado, quanto a mim, atribuir uma datação anterior ao cristianismo à imagem desta Senhora, contudo, seria muito interessante fazer-lhe um estudo meticuloso que certamente dissipará algumas teses. Do que não temos qualquer dúvida é que a imagem em pedra de Nossa Senhora de Antime é muito antiga, talvez até, um pouco anterior ao século XV.


Duas procissões que se fundem numa só depois da saudação das Senhoras

Não sabemos ao certo quando se iniciou a prática das duas procissões; ou seja a que sai da Igreja Nova de S. José com a Senhora da Misericórdia ao encontro da outra procissão que partiu da Igreja paroquial de Antime com a Senhora homónima. É na ponte de S. José que as duas Senhoras se encontram e saúdam curvando-se. Seguem depois em direcção a Fafe num único cortejo. Depois de fazer uma passagem pelos Paços do Concelho, onde autoridades civis fazem a devida vénia às Senhoras, a procissão, uma das mais concorridas da região, segue para a Igreja Nova, de onde regressa, no final da tarde, antes de anoitecer, à Casa de origem.

Actualmente o andor da Senhora de Antime já não pesa trezentos e sessenta quilos e nem sempre os seus carregadores são jovens possantes, muito menos carregam a Senhora para poderem casar. Certo é que os concorrentes para tão árdua tarefa de carregar, de pés descalços, um andor, ainda assim muito pesado, de Antime para Fafe e vice-versa, fazem-no com muita devoção e como forma de pagamento de graças concedidas pela Senhora mais devotada em todo o concelho.

Apesar da tradição ter sofrido alterações, e poucos serão os que ainda comem o anho assado nesta ocasião, certo é que à romaria da Senhora de Antime que hoje corresponde também às Festas do Concelho, acorrem dezenas de milhares de peregrinos numa manifestação religiosa que se realiza ininterruptamente à pelo menos cento e cinquenta anos.





A Tradição


A propósito das Festas da Senhora de Antime, Paulino da Cunha escreveu no Almanaque Ilustrado de Fafe, em 1909, o seguinte: …”no alto de um cerro, sobranceiro à freguesia de Armil, dominando-a, um penedo, onde fizeram, há que anos! Num baixo-relevo, a picão de pedreiro, de um decímetro de comprimento e meio de largura, a configuração de um “bidé”, poderia de algum modo descobrir a origem de tão arreigada devoção popular. Esta é a pegadinha de Nossa Senhora, que passou por aqui para ir para Antime. Veja; não se parece com o pé da Senhora? Por muito grande que fosse a minha vontade de ver, foi-me impossível notar a semelhança, afirmada por todos e muito conhecida também de muitos que ainda a não viram: é o penedo da pegadinha. Penso todavia que tal pegadinha andará envolvida em alguma história tradicional, que já morreu, com a geração passada, que a não pode transmitir à presente, graças talvez à força da civilização. Não sei. O que afirmo é que a Festa da Senhora de Antime é a festa de Fafe por excelência. Nesse dia todas as famílias, não excluindo as menos abastadas, vestem um fato novo e comem o anho da praxe, a única parte da tradição que ainda hoje respeita.

Ornamentações dos anos 40 - Séc. XX

Celebra-se sempre no segundo Domingo de Julho, nas duas Igrejas, a de Antime e a de Fafe, culminando com uma procissão, que é subdividida em seis. Logo de manhã cedo, a uma hora devidamente aprazada ela sai da Matriz de Fafe dirigindo-se para o limite (da freguesia) e ali aguarda, ao encontro da Senhora que sai da igreja paroquial de Antime, a Senhora que é transportada, pelos rapazes mais valentes da terra. E é este andor que o povo quer ver, acompanhar, seguir, rodeá-lo, acotovelando-se e calcando-se numa religiosidade curiosa e comovente.

À tarde, aquela procissão segue no sentido inverso, acompanhada da que pela manhã a foi esperar. Ao chegarem ao Lombo pousam no solo os andores e encostam o palio e as cruzes aos derreados muros dos campos para, à vontade assistirem todos à queima dos “bonecos” e do “castelo”, gáudio do rapazio local. Era aqui que, em destaque, se colocavam os que mais desejavam ser vistos de roupa nova. Mas o costume tende a desaparecer. A procissão lá segue depois para a sua igreja, num pitoresco encantador e até poético ambiente, deixando a consolação na alma piedosa do povo e enchendo de alegria o coração da mocidade.”




A Lenda


Diz a lenda que certo dia, para os lados do Monte de S. Jorge, a imagem de Santa Maria foi encontrada por pedreiros que trabalhavam no local. De imediato a notícia foi espalhada e populares das freguesias de Fafe e Antime acorreram ao local reivindicando, ambas as partes, a posse da imagem. Após acesas discussões, os populares de uma e de outra freguesia acordaram que a imagem da Senhora ficaria a pertencer à povoação para onde, espontaneamente, se dirigisse um carro de bois desgovernado, transportando a tão disputada imagem. O carro de bois acabou por tomar a direcção de Antime, onde foi edificado um templo dedicado à Senhora que adoptou o nome da localidade. Entretanto, os de Fafe não teriam gostado muito da ideia de perder a posse da imagem e convenceram aos antimenses de, pelo menos uma vez no ano a senhora seguisse em procissão até Fafe e lá permanecesse, regressando a Antime antes do anoitecer.

À sempre um fundo de realidade nas lendas, prova disso é que em cada segundo Domingo de Julho, desde há muitos anos, a Senhora de Antime é deslocada em procissão entre as duas freguesias.
























































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