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28 de julho de 2011

“Taberna da Esquiça” é a última Casa de Pasto da Cidade


“Taberna da Esquiça”

Recuemos um pouco no tempo até inícios do século XX; o actual Largo da Liberdade, naquela época pertencia ao Lugar da Granja. Um proprietário conhecido por “Morgado da Granja” vivia numa luxuosa casa que ainda existe no local e era o dono de um conjunto de outros prédios, incluindo uma casa de lavoura que corresponde ao edifício da “Taberna da Esquiça”. Pelo que conseguimos apurar, foi durante a primeira década de novecentos que Álvaro Jacinto da Costa Leitão e Maria Alice de Freitas, deixaram as suas profissões de jornaleiro (calceteiro), e “criada” doméstica para abrirem o seu próprio negócio nos baixos da referida casa de lavoura que, até aí, serviu como “cortes” de animais. Álvaro revelou-se um profundo conhecedor de vinhos e um bom negociante, enquanto Maria Alice era uma cozinheira de mão cheia. Estavam criadas as condições para um negócio com sucesso. Apesar da concorrência de outras tabernas existentes naquela zona da antiga Vila como o “João Possas”, o “Ruferta”, o “João Feira-Velha” e o “Lameiras”, a Taberna da Esquiça era das mais concorridas, pela boa qualidade do vinho e da comida.

Casa do Morgado da Granja

Desde finais do século XIX, fazia-se naquele local a Feira dos Porcos. Semanalmente, às quartas-feiras, os negociantes de suínos traziam os seus animais em carros de bois dentro de uma “canastra”. Na altura, como actualmente a “Esquiça” era mais frequentada em dias de Feira semanal.

À morte prematura de Álvaro Leitão, com 55 anos de idade, o negócio não foi abandonado, a sua companheira Maria Alice deu-lhe continuidade e com a ajuda da sua filha Teresa, emigrada em França, o espaço foi restaurado e remodelado, dando-lhe a dignidade e as condições que a modernidade exige.


 Maria Teresa Costa Leitão (Esquiça)

Regressada de França Maria Teresa Costa Leitão (Esquiça), tomou conta da casa há cerca de 13 anos com o apoio dos filhos Armindo e Manuela.

A “Esquiça” que outrora teve forte concorrência é hoje, passados cerca de cem anos da sua fundação, a última Taberna da Cidade de Fafe.





A alcunha “Esquiça”

As alcunhas surgem através do relacionamento interpessoal para identificar uma determinada família, mas, nem sempre conhecemos a origem dos cognomes. Neste caso, conseguimos apurar que o epíteto “Esquiça”, contrariamente ao que muitos pensam, não tem nada a ver com o “esquiço” das pipas, é, inclusivamente, anterior à fundação da taberna. Um antepassado da família Leitão que tinha a profissão de alfaiate, ao ver o grande movimento e curiosidade de potenciais clientes em sua casa, repetia com muita frequência: “Esquiça dali, esquiça de acolá e não me deixam trabalhar”. A alcunha “Esquiça” vem portanto deste repetido queixume do alfaiate Leitão, há mais de um século.



Vitela Assada, a receita é simples e “não tem segredos”

 

A taberna da “Esquiça” é das poucas casas locais onde se pode degustar a tradicional vitela assada à moda de Fafe. Teresa Leitão aprendeu a cozinhar com a sua mãe. A vitela assada confecciona-a da forma tradicional e afirma não ter qualquer segredo.



A carne tem de ser de boa qualidade, da “ilhada”, do “nispo” ou da “costela mendinha”, cortada em postas (nacos). A vitela é temperada na véspera com vinho branco, sal, alho e pimenta, tudo “ralado”. No dia seguinte as postas são colocadas numa “pingadeira” sobre uma camada de rodelas de cebola e temperada com pimentão-doce; deita-se um pouco de azeite… “não se pode botar muito porque a ilhada já tem gordura que chegue”. Adiciona-se um pouco de água para cortar a gordura e de seguida vai assar no forno de lenha. Quando se dá a primeira “viradela” põem-se as batatas. O processo de “assadura” tem de ser lento com várias “mexidelas” até ficar pronta. Em dias de feira semanal (quartas feiras), Teresa “Esquiça” acende o fogão a lenha às 6 horas e só por volta das 11 horas a vitela fica pronta.




Um espaço de tertúlia

Invariavelmente, no final da tarde, após uma jornada de trabalho, os amigos reúnem-se à volta da mesa em conversas animadas. Fala-se e discute-se praticamente tudo: avaliam-se políticos, futebolistas, treinadores e outros ilustres da actualidade. Fala-se muito das coisas que Fafe tem ou deveria ter, ou não ter, uma autêntica tertúlia que bem merecia os seus anais para a posteridade.

À volta de uma merenda, os “amigos da Esquiça”, molham a palavra com o “néctar precioso” exorcizando a pressão de um quotidiano cada vez mais difícil. São muitas as ideias que ali surgem… algumas bem podiam ser aproveitadas em prol do desenvolvimento da Terra… Por entre acesas discussões também há lugar para a brincadeira e alguma que outra picardia; Armindo “Esquiça”, filho da proprietária, é muitas vezes o alvo preferido, não fosse ele quem serve, e recebe!



O cliente mais antigo tem 90 anos e é sobrinho do fundador



António da Costa Leitão, nascido em 11 de Dezembro de 1920, é o cliente mais antigo da “Taberna da Esquiça”. Sobrinho do fundador, o “Toninho”, como é mais conhecido, lembra-se de acompanhar o seu tio Álvaro para comprar vinho para os lados de Fareja e Pombeiro de Felgueiras. “Ninguém o batia a vender vinho… era até invejado”, afirmou António Leitão, que recorda os bons tempos vividos na taberna dos seus tios; um espaço exíguo com pouco mais de dois metros de pé direito e piso em terra onde havia uma grande mesa e bancos que sentavam ricos e pobres, “ciganos e grandes Senhores da Terra”.

“ A minha tia Alice era uma grande cozinheira e muitas vezes fazia comida para os brasileiros da Pica, gente com posses que gostava e podia comer bem”. “Toninho” lembra-se também de uma ocasião transportar um tacho de feijoada com tripa destinada a Avintes, chegado ao Porto “onde paravam as camionetas”, o jovem António foi abordado por alguns homens que acabaram por comer a feijoada que, teve ali, o seu fim antecipado. António Leitão falou também nas concorridas Festas de S. João que se realizavam no largo fronteiro à taberna; “tinha uma vistosa cascata, feita nas escadas da casa do Morgado e chegou a ter duas bandas de música a tocar ao despique”.



António Leitão e sua companheira Albertina, de 90 e 89 anos respectivamente, continuam a frequentar a “Esquiça”, comendo as suas merendas regadas com a indispensável “pinga”.



A “Taberna da Esquiça” é uma das mais antigas e emblemáticas casas de negócio da cidade de Fafe, conferindo-lhe, inequivocamente, grande valor patrimonial e Cultural, enquanto testemunho vivo de uma gastronomia tradicional que infelizmente se vai perdendo e que todos deveriamos conservar e valorizar.














1 comentário:

Anónimo disse...

Exelente reportagem sobre a "Esquiça" e bom guardar as tradicoes.

Continuai gostei muito

Joaquim Santos

Um abraço de Paris para Fafe