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3 de novembro de 2011

RECORDANDO MIGUEL MONTEIRO


Miguel Monteiro atraído pelas novas tecnologias
Rosto da primeira obra de Miguel Monteiro já na segunda edição práticamente esgotada



Convite para o lançamento da primeira obra de Miguel monteiro que ocorreu em 1991 no Estúdio Fénix com a plateia lotada.

Miguel Monteiro – Fafe dos ‘Brasileiros’ (1860-1930) – Perspectiva histórica e patrimonial, Fafe, 1991

UMA CRITICA DE FRANCISCO TOPA
Agora que Portugal parece assistir a um outro regresso das naus, vão-se apagando os vestígios da época em que o imaginário popular estava dominado pela visão idealizada de um Brasil mirífico, capaz de transformar sem esforço o pobre minhoto que a ele se acolhia num próspero «brasileiro», apto a regressar à terrinha com os bolsos atulhados de notas e os dedos entupidos de diamantes.
Fenómeno a todos os títulos importante para a vida portuguesa – de tal modo que Herculano pôde escrever que o Brasil, apesar de independente, se tornara a nossa melhor colónia –, a emigração para o Brasil suscitou o interesse literário de autores como Camilo, Júlio Dinis, Luís de Magalhães, Ferreira de Castro, Torga ou Aquilino, e deixou as suas marcas numa série de composições do cancioneiro e do romanceiro nacionais. De algumas décadas a esta parte, o tema tem vindo a ser tratado por investigadores de áreas tão diversas como a literatura (Guilhermino César e Nélson Vieira), a geografia (Jorge Arroteia), a história (Joel Serrão), a etnografia (Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano) e a arquitectura (Jaime Salazar Braga). Apesar disso, a questão continua longe de estar esgotada, como o revela esta obra de Miguel Monteiro, nascida na sequência de um trabalho local de sensibilização para a necessidade de preservação da memória do «brasileiro», sobretudo ao nível da arquitectura.


Conforme o título de alguma forma já o indica, trata-se de uma monografia local, o que justifica que o «brasileiro» – embora merecendo uma atenção privilegiada – seja um elemento entre outros para a caracterização da vila de Fafe no período histórico considerado. Por outro lado, o tipo de ensaio por que optou o autor justifica algumas das debilidades da obra, designadamente as digressões didácticas sem grande interesse e o privilégio da vertente expositiva e documental em detrimento de uma linha interpretativa e comparativa mais consequente. De qualquer modo, e não obstante esses condicionalismos, este estudo fornece alguns contributos importantes para o debate do tema, o que se deve desde logo à circunstância de o campo de trabalho ter sido delimitado no espaço e no tempo, facilitando assim o rigor da observação.


Como seria de esperar, o «brasileiro» focalizado é sobretudo o emigrante que voltou rico. Por isso, a atenção principal vai para as consequências do regresso, para o impacto ao nível do desenvolvimento da colectividade de origem, ainda que – de passagem – nos sejam fornecidas algumas informações para a caracterização do fenómeno da emigração a outros níveis: com alguma dose de surpresa, ficamos a saber, por exemplo, que a emigração fafense foi de tipo familiar e seduziu todos os estratos da população, incluindo a aristocracia local.
Assim, o autor dá conta da importância do «brasileiro» ao nível da arquitectura e do desenvolvimento urbano, com a edificação de moradias (de que nos são apresentadas algumas dezenas de fotografias, acompanhadas de um comentário sobre o estilo) e o apoio dado à construção de espaços públicos (passeios, jardins, mas também escolas, asilos e hospitais); ao nível económico, com o incremento do comércio, da hotelaria e da indústria (é o caso da implantação, em 1873 e 1886, de duas importantes unidades têxteis, que geraram um grande impacto económico-social, quer pelos investimentos directos, quer pelos postos de trabalho criados); ao nível cultural, com o fomento da imprensa local ou a edificação de um cine-teatro.

Mas, para além dos efeitos mais visíveis, o impacto do «brasileiro» ao nível cultural não se terá ficado pelas obras referidas. Segundo Miguel Monteiro – que, aliás, retoma ideias que outros autores já tinham proposto, pelo menos em relação à arquitectura –, o «brasileiro» terá funcionado como uma espécie de embaixador cultural do país que o acolheu, vendo essa inclinação favorecida pelo desejo de imitação que se apodera da sociedade local:
O culto por símbolos de identificação brasileira em Fafe chega a assumir dimensão colectiva no ajardinamento da Praça de José Florêncio Soares, no princípio do século XX, onde era visível todo o exotismo tropical, restando-nos aqui e além testemunhos dessa paixão (p. 45).

Para esta situação também terá contribuído o facto de, segundo o autor, a ascensão económica destes emigrantes ter sido acompanhada de uma prestigiante ascensão cultural:
Estes, assimilam no Brasil os costumes, os hábitos, a educação, vestem-se nos grandes costureiros, residindo nos melhores hotéis, frequentando os melhores teatros e penetrando-se de arte e de elegância numa Europa de fausto e fantasia capitalista dos finais do século XIX. Em todas as casas de ‘brasileiro’ em Fafe, além do indispensável piano, outros instrumentos musicais, tais como violinos e harpas, preenchiam serões e recepções de uma elite bem brasileira, quase toda de parentesco chegado. Em casa fala-se francês, já que este é o idioma privilegiado. Aliás, não só a língua, revistas e literatura, mas também obras de arte francesas, predominam nas casas do ‘brasileiro’. Igualmente, recordações da Itália e Suíça adornam com requinte e fausto um período áureo, a partir do qual nada foi igual, e de que Fafe ainda hoje sente a presença, quer social, quer arquitectonicamente (p. 47).


Outro mérito importante da obra tem a ver com o tipo de fontes a que o autor recorre. Para além da observação directa, da entrevista a pessoas pertencentes à família dos emigrantes arrolados, foi também consultada a iconografia existente, o arquivo municipal e a imprensa local, o que permitiu a apresentação de pequenos documentos tão significativos como este apelo, publicado em 1910 no Almanaque de Fafe:


IGREJA NOVA
Nas obras já feitas, estão gastos uns 24 000$000 de reis. Como se pode ver, é um edifício de luxo, onde sobressai a arte. E está parada por falta de recurso. Fafenses que estais lá longe: – A vós vai um apelo, para num rasgo de patrio-tismo, angariardes dinheiro para a conclusão destas obras que as intempéries estão a destruir. Perder 24 000$000 de reis, oh é pena! (p. 124).
Concluindo, diremos que, apesar das limitações apontadas, estamos perante um trabalho de algum modo pioneiro, com pistas interessantes para o estudo do tema do «brasileiro». Fica a esperança de que ele constitua incentivo para a realização de outras pesquisas – de âmbito local e de âmbito global –, contribuindo assim para o esclarecimento de uma questão central no relacionamento entre Portugal e o Brasil.
 Francisco Topa (1999)



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