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9 de abril de 2012

A INDÚSTRIA DA PALHA NOS ANOS 50 DO SÉCULO XX






Maria Palmira da Silva Pereira, no seu livro, Fafe – Contribuição para o Estudo da Linguagem, Etnografia e Folclore do Concelho, editado em 1952, descreve assim a indústria caseira da trança e chapéus de palha.



«É esta uma das indústrias mais características do concelho e, das pequenas industrias, talvez a que maior numero de pessoas ocupa.

A trança é feita de colmo molhado, que se traz em molhos muito pequenos, debaixo do braço esquerdo. No mesmo braço dependura-se a trança, à medida que esta vai crescendo e, quando a porção já é suficiente, vendem-se às braças, para as freguesias onde se confeccionam chapéus, entre outras, Travassós – foco de actividade máxima -, Vinhós e Golães.


A confecção da trança parece uma brincadeira; um entretenimento proveitoso é-o, pelo menos, para algumas pessoas, porque, não exigindo grande ciência nem atenção, permite que nela trabalhe quem quer que seja, sem excluir crianças, mesmo dos dois sexos.



 


Em algumas das excursões que fiz, particularmente pelo norte e centro do concelho, quase não vi gente ociosa. Pelo contrário, as raparigas e velhas estão tão afeitas à sua trança, que só quase a largam para tomarem as refeições. Ainda não tocou para a missa e já elas estão agarradas. Nela vão trabalhando até à porta da igreja, onde provisoriamente a deixam, enquanto entram para rezar e, apenas saem, retomam a sua tarefa que não mais abandonam. Isso não obsta a que se entreguem a outras ocupações.





E é assim mesmo, guardam e conduzem gado, transportam fardos, cestos ou feixes de “crótchas” ao mesmo tempo que entre os seus dedos fazem correr maquinalmente a trança.

Outras vezes, a mãe faz-se acompanhar do seu filhinho mais novo, daquele que ainda não é capaz de a imitar neste trabalho, e leva-o até à fonte a vigiar o cântaro da água, para que o seu serviço renda e não tenha de ser interrompido. Tem-se divulgado tanto esta indústria que o número de adeptos, sempre crescente, já se não confinam apenas à parte setentrional do concelho, mas invade o centro em direcção ao sul. A gente nova prefere este modo de vida a todos os outros, porque, além de fácil. Lhe permite conversar e deslocar-se pela aldeia até à vila, sem prejuízo do rendimento do trabalho.




 

Nas aldeias em que esta indústria está mais florescente, usam-se as «fazidas de trança», serões exclusivamente destinados a este serviço.




Nos dias de feira, acorrem a Fafe aldeãs de todos os pontos do concelho que aí vêm abastecer-se e vender, a par dos produtos das suas “laboiras”, enormes rimas de chapéus e palha. Nem ali afrouxam o seu trabalho, continuando a interminável trança, enquanto atendem ou procuram convencer algum freguês.


Arquivo ATRIUMEMORIA

O concelho, não só fornece o país, mas exporta também frequentemente, para o estrangeiro, grande quantidade destes chapéus.»

As fotos a cores foram tiradas durante a recriação etnográfica realizada em Paços e Golães, no âmbito do evento "Os Caminhos de Camilo", integrado no programa das 3ªs Jornadas Literárias de Fafe.



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