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5 de abril de 2012

MARIA DA TRANÇA DE PALHA





A trança de palha é uma tradição que se mantém em diversas freguesias do concelho, perdeu a importância de outrora. Transformou-se em artesanato. Contudo, ainda há quem faça trança e confecione chapéus de palha, é sempre um complemento para os cada vez mais magros orçamentos familiares. Não será de estranhar que esta actividade venha a crescer nos próximos tempos, no concelho de Fafe.
Algumas das tradições quase perdidas poderão ser retomadas, não para recriação mas como imperiosa necessidade dos que ainda não abandonaram o meio rural.





Maria Luísa, a tocar os setenta anos de idade, vive só numa casa restaurada com a ajuda dos seus filhos, no lugar Requeixo em Travassós.

Filha de mãe solteira que a criou com o auxílio de uma tia, Maria Luísa começou a fazer trança com apenas sete anos. Fez a 3ª Classe na Escola de Vilar e nunca conheceu outra ocupação para além da trança e das lides domésticas.

Teve um companheiro que a abandonou com cinco filhos: três raparigas e dois rapazes que ela criou com muito sacrifício.





Agora está aposentada com 200 Euros mensais. “Não chega a nada… o Governo antes quer dar o dinheiro aos malandros e aos drogados, não quer saber de nós para nada”, desabafou.

Há sessenta e dois anos que a vida desta mulher corajosa, sem “papas na língua” é igual; levanta-se cedo e logo pega nas “palheiras” de “ferrã” para entrançar quase ininterruptamente.

A matéria-prima é comprada aos poucos lavradores que ainda produzem aquela qualidade de palha.



Maria Luísa investe 100 Euros por ano em palha “ferrã”. Tem de a cortar e preparar para depois, durante cerca de doze horas por dia ao longo de quase 365 dias por ano, fazer a sua trança, de cinco ou sete “palheiras”, consoante a necessidade. Luísa faz uma média de 50 braças de trança por dia (cada braça tem aproximadamente um metro de comprido), pouco mais de quatro tranças que são compostas por uma dúzia de braças (cerca de 12 metros). Por cada trança Maria recebe 0,25 Euros, feitas as contas, deduzindo o investimento na matéria-prima, esta artesã ganha menos de 1 Euro por dia! “Mal chega para o trigo… se comer pouco!” exclamou Maria Luísa que apesar de tudo gosta do que faz e afirma continuar até que a saúde o permita. “É um entretenimento”, disse.


Maria tem saúde e boa disposição, é uma mulher de coragem que lida muito bem com as agruras de uma vida muito sacrificada. É feliz com a sua ocupação na trança e na companhia dos "santinhos" que povoam o seu lar.

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Entretanto o seu cândido olhar azul vai continuar atento às “palheiras” que deslizam pelos dedos calejados de muitos anos dedicados a uma actividade artesanal, cada vez menos frequente, que deveria ser apoiada e preservada.









FAFE ESPALHOU CHAPÉUS DE PALHA PELO MUNDO



Nos anos 50 do século passado a trança e a confecção de chapéus de palha correspondiam a uma das mais características indústrias do concelho rural.



Um pouco por toda a região de Fafe muitas mulheres e até crianças, ocupavam-se a fazer trança com colmo de centeio molhado que as artífices colocavam, em pequenos molhos, sob o braço esquerdo, que suspendia também a trança à medida que crescia.




Fazia-se trança a todas as horas, o lavor apenas era suspenso nas horas das refeições ou na necessidade de participar em outra tarefa de lavoura. Antes de o sino tocar para a missa vespertina, já elas moldavam as finas “palheiras” com uma destreza manual alucinante. Seguiam para a Igreja sempre de mãos ocupadas, interrompiam durante a missa e logo na saída retomavam este trabalho muitas vezes ambulante, durante o dia, à noite organizavam-se as «fazidas de trança», serões exclusivamente destinados a este serviço. Existiam várias técnicas de entrançar a palha: francelins, tocas, peixeiras, redilhas e escumilhas.





O produto finalizado era vendido às braças (medida da trança correspondente á distancia entre os punhos de um individuo de braços abertos).

O maior produtor de chapéus de palha, naquela época, era a freguesia de Travassós. Vinhós e Golães foram também lugares importantes nesta indústria.



A trança era cosida à mão ou em máquinas dando forma aos chapéus de palha, de vários tipos e tamanhos que as aldeãs carregavam em grandes pilhas para negociar em feiras.

Fafe era na altura o maior produtor de chapéus de palha fornecendo os quatro cantos do país, fazendo também exportações para vários outros países.


Jesus Martinho


Fonte: Pereira, Maria Palmira da Silva, Fafe, Contribuição para o Estudo da Linguagem, Etnografia e Folclore do Concelho, Coimbra 1992.

















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