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25 de maio de 2012

"JUSTIÇA DE FAFE" ENTRE A REALIDADE E O MITO



Não sabemos com exactidão o momento histórico da génese da afamada “Justiça popular” de Fafe. Uma das lendas relacionadas com esta “Justiça”, remete-nos para o período Medieval, no tempo do Conde D. Henrique, envolvendo o seu Alferes-Mor, Dom Fafes Teles Luz. Outros mitos conhecidos, que chegaram até nós por via da memória oral, têm uma cronologia mais tardia, já na Idade Moderna.

Há 145 anos, José Augusto Vieira escrevia, na sua obra “O Minho Pittoresco”, o seguinte:

Olhe meu caro, esta boa terra de Fafe é assim: pão pão, queijo queijo. Portuguesa de Lei, hospitaleira, franca até à rudeza e capaz de pôr um bom cacete de cerquinho, a sua justiça d’eles, onde el-rei não haja posto a sua própria.
E é que a espada vai na burra, e nada por isso de contrariar a altaneira Fafe. Mas é de simpatizar não é verdade?»

Estas palavras do médico escritor, revelam que antes de 1866, Fafe já era conhecida pela sua “Justiça popular”. Estamos por conseguinte perante uma simbologia que vem de longe que se enraizou na memória colectiva dos fafenses, espalhando-se pelo mundo como principal cartão-de-visita de Fafe.

Se até aqui havia alguma verdade neste particular… e há episódios que testemunham o fácil recurso popular ao ajuste de contas… no inicio do século XX a “Justiça de Fafe” passou a ser uma tradição, uma espécie de “imagem de marca”, que ainda hoje tem bastante significado, continuando a ser uma referência incontornável quando se fala desta Terra.



Reprodução do Jornal "O Desforço", 7 Novembro 1907

Artur Pinto Bastos publicou na primeira página do seu jornal “O Desforço”, datado de 7 de Novembro de 1907, uma reprodução do que parece corresponder ao primeiro bilhete-postal ilustrado, representativo da nossa “Justiça”.
Sob a reprodução o jornalista escreveu o seguinte:

“Com este desenho foram publicados no 1º de Novembro, editados pelo snr. Luiz Nogueira Moniz, uns bilhetes postaes allusivos á terra, que se acham por ahi á venda. Elles referem-se a uma tradição daqui. Por felicidade nossa, com o andamento da civilização, o célebre cacete, a que muitos davam o nome de «Justiça de Fafe», tem-se banido do nosso meio, e hoje quasi que só existe no postal, que tem tido grande voga, por significar que antigamente, com Fafe ninguém podia fanfar.”

A REALIDADE

“ A Senhora de Antime é de pedra, e pesa com a charola vinte e quatro arrobas. Os mais poçantes moços da freguesia pegam ao banzo do andor.

Aconteceu há anos, ser um dos que puseram ombro ao andor mal visto dos outros, e de um principalmente. Ao dobrar de uma esquina o moço odiado, sentiu-se vergar sob as vinte e quatro arrobas de pedra, e morreu instantaneamente esmagado. O principal inimigo do morto foi logo conhecido e varado por uma choupada que lhe fez espirrar sangue e a vida à charola da imagem.

Tirem disto a limpeza de consciência e religiosidade daqueles sujeitos, que ali vão dar testemunho do seu fervor, com a Senhora de Pedra aos ombros!”

Esta descrição foi feita em 1862 na obra de Camilo Castelo Branco, “Memórias do Cárcere”


O MITO

" Um jovem rapaz filho de gente humilde, no dia das festas da Senhora de Antime, enquanto assistia à passagem da procissão, viu a sua “trigueira”, bela e amada namorada ser apalpada no “traseiro” por um abastado fidalgo que visitava Fafe, tradicionalmente, pelas festas da Vila. O jovem namorado, embora ficasse muito ofendido, não quis “fazer peito” e pacientemente deixou passar a procissão. No final deste acto religioso, o rapaz dirigiu-se ao fidalgo fazendo-lhe sentir o seu desagrado pelo gesto obsceno feito à sua namorada momentos atrás. O burguês, tirando a sua cartola da cabeça, fá-la passar junto da cara do rapagão que sentindo-se uma vez mais provocado, quis lavar a sua honra, desafiando o ricaço para um duelo. O desafio foi aceite. No momento de escolher as armas, foi pelo próprio povo que assistia à discussão, pedido aos homens desavindos que mantivessem a tradição do jogo do pau. O ofendido aceitou esta escolha popular das armas. Pelos presentes foram então entregues aos rivais dois valentes “lódãos”.

 A escaramuça começou. Ouviam-se, de vez em quando, os gemidos de dor dos homens quando sofriam as fortes pancadas, misturadas com o som do bater dos paus. Os populares que assistam a esta renhida luta, batiam palmas. Era o delírio, há muito que não se via uma rixa destas.

O pobre rapaz deu tamanha lição de pancadaria no burguês que, fugindo a “sete pés”, abandonou rapidamente a Praça, ouvindo ainda o grito de todos os populares:

“Viva a justiça de Fafe!” “Com Fafe ninguém fanfe”.

Esta lenda foi reproduzida na “Monografia da Freguesia e Cidade de Fafe”, Junta de Freguesia de Fafe 2008.

A “Justiça de Fafe” é, ainda hoje, um símbolo identificador desta Terra, do qual muitos fafenses se orgulham, por cá e pelo mundo. É uma tradição histórica incontornável que o concelho de Fafe quis perpetuar em forma de monumento erigido nas traseiras do Tribunal em 1981. Para “lavar” talvez, um pouco a imagem pejorativa que alguns poderão dar a esta tradição, foi concebido o verso seguinte:



“É a tradição que assevera

Que corremos tudo a pau

Mas nenhum de nós é fera

E fafense algum é mau.”












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