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7 de julho de 2012

SENHORA DE ANTIME UMA ROMARIA CENTENÁRIA




As primeiras referências à romaria da Senhora de Antime surgem na segunda metade do século XIX, através da pena do grande romancista Camilo Castelo Branco que, na sua obra “Memórias do Cárcere”, editada pela primeira vez em 1862, faz a seguinte descrição: “É de saber que Luis Lopes, António Manuel e José Vieira, que ainda vive, foram em anos verdes, três denotados jogadores de pau, e tamanho terror incutiram nas cercanias de Fafe que bastaria a qualquer deles, para vencer a sua, mandar o pau e não ir, como o rei da Suécia fazia às botas.
As mais memorandas façanhas dos Vieiras tinham o seu teatro na celebrada romaria da Senhora de Antime. Aí apareciam os três campeadores mascarados, como era de uso em mancebos de famílias de alto porte. As máscaras afiavam as chancas de outros chibantes, e deste gracejar de mau agouro procedia o partirem-se as caras por debaixo das máscaras, como se as não quisessem para outro mister, ou as sacrificassem à padroeira da romagem, como os índios se estiram sob as rodas das carroças dos seus ídolos. A Senhora de Antime é de pedra e pesa com a charola vinte e quatro arrobas. Os mais possantes moços da freguesia pegam ao banzo do andor. Aconteceu, há anos, ser um dos que puseram ombro ao andor mal visto dos outros, e de um principalmente. Ao dobrar de uma esquina o moço odiado sentiu-se vergar sob as vinte e quatro arrobas de pedra, e morreu instantaneamente esmagado. O principal inimigo do morto foi logo conhecido  e varado por uma choupada, que lhe fez espirrar o sangue e a vida à charola da imagem. Tirem disto a limpeza de consciência e religiosidade daqueles sujeitos, que ali vão dar testemunho de seu fervor, com a Senhora de pedra aos ombros!”.



O prematuramente desaparecido investigador Miguel Monteiro defendeu que a procissão de Nossa Senhora de Antime tem raízes num “ritual muito antigo praticado pelos rapazes casadoiros, cumprindo assim o rito da passagem de adolescentes para o estádio dos adultos, num hino à fecundidade que lhes é esperada pela comunidade, simbolizado na Ara e no icon.” O mesmo autor baseou esta interpretação no facto da Senhora de Antime ser também designada por Senhora do Sol, numa manifestação mágico-simbólica à estrela principal do sistema solar, como “valor masculino a quem são atribuídas capacidades fecundantes”.
Miguel Monteiro escreveu ainda: “Com a cristianização da região, procurou-se substituir este ritual pagão por outro mais adequado à simbologia cristã, surgindo assim a Nossa Senhora de Antime como um culto de substituição, ligado provavelmente ao mosteiro de Santa Maria de Antime, documentado  já no ano de 1120, tendo o icon pagão primitivo sofrido uma transformação plástica, colocando-lhe uma cabeça e os braços, de modo a dar-lhe as feições de uma Santa Cristã.”


Decorações das Festas da Vila - anos 40

Em 1874, Pinho Leal, no seu Dicionário Corográfico descreve a imagem da Senhora de Antime como sendo de “granito metamórfico, com braços postiços e sem pernas nem pés, nem feitio algum de gente, além da cara.”
 Será um pouco arrojado, quanto a mim, atribuir uma datação anterior ao cristianismo à imagem desta Senhora, contudo, seria muito interessante fazer-lhe um estudo meticuloso que certamente dissipará algumas teses. Do que não temos qualquer dúvida é que a imagem em pedra de Nossa Senhora de Antime é muito antiga, talvez até, um pouco anterior ao século XV.

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