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18 de fevereiro de 2018

FAFE NA REVOLUÇÃO DO MINHO EM 1846 O Relato do Padre Casimiro (2)



Ermida da Lagoa



Perseguição da Lagoa a Fafe

« Junto o povo na Lagoa depois de andada uma grande légua por aquelas íngremes paragens, marchamos a Moreira de Rei com a mesma melodiosa música dos businões. Como eu, porem, corria mais que os outros, por estar persuadido que ia apanhar os soldados à unha e por me lembrar que, ficando com as armas deles, me podia depois bater com toda a tropa de Portugal, ia sempre na frente só e a grande distância do povo.
Antes de mim e sem eu sentir, tinham marchado dois rapazes corajosos e desembaraçados, e próximo a Moreira, que distava da Lagoa outra grande légua, fizeram-me sinal ainda de longe que já avistavam a tropa. Hesitei um instante, por não distinguir se pertenciam à tropa ou ao povo, mas lembrando-me que nem a cavalaria seria capaz de me apanhar, correndo eu em caso de perigo por alguma ladeira abaixo, marchei a eles e me mostraram a tropa, parte já assentada e parte a assentar-se, para descansar no fundo da encosta a distancia de tiro de caça.

Igreja Paroquial de Moreira do Rei


Disse-lhes então em voz alta – rapazes aqui está o padre Casimiro, comandante do povo de Vieira, a quem procurastes para prender; ou vos rendeis ou nenhum de vós fica hoje vivo – Logo se puseram todos a pé, mas como não deram sinal de se render, disparei para eles a pistola de cavalaria que levava, e cada um dos dois rapazes que estavam ao meu lado disparou igualmente a sua clavina, e a tropa nos respondeu com uma descarga. Carregámos de novo e repetimos outra descarga, a que a tropa respondeu do mesmo modo.

 A este tempo chegou o povo, que ficara todo na Lagoa, e começaram então as grandes descargas de lado a lado, e comecei eu em seguida com voz muito forte e sonora a gritar ao povo das freguesias vizinhas – toquem os sinos a rebate, acudam, acudam à estrada, que lá vai uma grande malta de ladrões, cerquem, cerquem, acudam à estrada, toquem os sinos a rebate.

Aí começaram logo os sinos a rebate em todas as freguesias, e o povo a correr à estrada com as armas que cada um tinha mais à mão, e eu marchei pela direita da estrada pelas matas abaixo a correr quanto podia, para lhes tomar a frente, animando todo o povo que ia saindo.

Marchou-se daí em diante em descargas cerradas, a légua desde Moreira até Fafe, avançando o povo quanto podia, e fugindo a tropa com igual velocidade em continuas descargas, de sorte que só à entrada da grande planície da Cumieira, subúrbios de Fafe, pude pôr-me ao lado da tropa, marchando eu pela planície e a tropa pela estrada da esquerda à distancia de tiro de pistola, porque entre mim e ela metia-se apenas um rego ou pequeno ribeiro.

Apareceu-me no princípio da Cumieira um rapaz da Vila acompanhado por um pequenito, o qual eu mandei que fosse de carreira à torre de Fafe tocar os sinos a rebate, e não tardou a ouvirem-se.
Passei a longa planície de toda a Cumieira, próximo sempre da tropa, dizendo-lhe de contínuo em voz alta quem era, e em toda ela, indo a descoberto, não me deram nem uma única descarga.



Sineiras da Igreja Matriz de Fafe


 Ao subir a tropa da Ranha para cima à entrada de Fafe, sai eu de frente a toda ela numa leira sobranceira à quelha, por onde ela subia e lhe repeti a fala que havia feito do alto de Moreira, acompanhado ali somente pelo rapaz de Fafe, por o povo vir atrás da tropa.
Como me não responderam, parando apenas todos os soldados e oficiais a ouvir-me atentamente o que lhes dizia, disparei-lhes de novo a pistola e nem então me deram uma descarga, retirando-me em seguida para perto da estrada à entrada de Fafe, e assentando-me a vê-los passar perto de mim. O rapaz de Fafe vinha saber o motivo daquele alvoroço. Porque em cada lugar ouviam-se descargas ao longe, e quase no mesmo instante ouviram-se já perto, tal era a velocidade, com que corria tanto o povo como a tropa.
Parou então o fogo por um pouco, enquanto a tropa comeu alguma coisa em Fafe, e nós também nos arredores.»


Ponte do Ranha



CONTINUA…


 IN: Apontamentos para a história da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte, Por Pe. Casimiro José Vieira, Braga, Typographia Lusitana, 1883. 

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